Duna [2016] 


Videoperformance

Cor, stereo, 16x9 4’24”

Duna​

Quando criança, minha mãe recolhia pequenas quantidades de areia de diferentes cores e arriscava uma combinação estética em garrafinhas de vidro. Desconheço essa cena. Essa memória é dela. Não minha. Mas depois que ouvi essa história nunca mais pude olhar garrafas de areia colorida sem que minha mãe estivesse em todas elas.

Os reencontros com o passado invalidam sua invenção. Por isso fingir o antes. Criar memórias e permitir que a verdade seja particular, fluida e irreal. Essa necessidade de que nos fala Bachelard de inscrever entre os seres da realidade os seres de nosso devaneio.

A memória como gatilho para acessar o mundo. Aqui me interessam as garrafas como símbolo que me vincula ao passado e ao espaço, em uma forçada conexão entre memórias, coisas e pessoas. As garrafas estão repletas de areia, é preciso colar a superfície para que todos os grãos permaneçam sob controle. Retiramos a porção de areia superior e ali tínhamos um caos iminente.

As agulhas invadem as garrafas e em um ruído característico de vidro, metal e areia reviram a paisagem. Um tom terroso, desses que vemos em qualquer lugar, vai engolindo os coqueiros, as falésias e o mar.

Seria o caos na verdade toda e qualquer tentativa de organizar porções de deserto como nos convém? Devolvemos, eu e minha mãe, à areia seu deleite de ser homogênea. Assim como não somos nós.

 

Areia. Que é de um lugar. Porque já foi rocha. Mas já não é. E transita pelo ar. Volátil. Nada mais pertence a um único lugar. Nem a palavra. Nem a memória. Nem muito menos a areia.

A cada ano, 27,7 milhões de toneladas de areia viajam do Saara para a Amazônia.

Todos os dias um pouco. Ninguém vê. Como uma pequena quantidade de areia colorida que se soma à imensidão de uma duna pastel. Será que volta para o Saara?

 

Não sei que sensação é essa de silêncio e calmaria se estamos cercados por tantos grãos. Parecem sempre intactos e organizados, um após o outro. De súbito, se embaralham em redemoinhos ao menor sinal de vento e impregnam a pele. Invadem a boca junto a cabelos e nos presenteiam com um ranger cru e seco. Fechamos os olhos e protegemos todos os orifícios, dando as costas ao violento

golpe típico dos meses de agosto e setembro.

 

A paisagem segue intacta. Em poucos minutos minhas pegadas são apagadas e tudo volta ao curso normal. Não provoco alteração alguma no espaço. Assim como faz o vento nos vestígios da minha recente presença, desfaço algo para que aquilo já não mais seja. Mas que não mais seja a partir também do esforço. E ao voltar para o todo - quando o conteúdo revolto da garrafa é derramado na duna - , ser no fim uma memória ressignificada. Que não deixa outras marcas que não a da própria ação, em mim. A duna carrega agora garrafas coloridas, minha mãe e eu.

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